16 de fevereiro de 2015

Fodam-se os finais felizes

     É, depois de todos esses anos você ainda tem a habilidade de me deixar sem palavras. Me pergunto como eu contaria essa história. Do inicio (é óbvio), mas, pergunto-me, qual foi realmente o inicio. Foi quando você me fez de idiota? Foi quando eu aceitei? É, eu realmente não sei qual foi o inicio. Então, vou contar como nos conhecemos, é o que se espera de um inicio.
     Eram quatro da tarde, eu tinha faltado da faculdade naquele dia. Meu melhor amigo tinha morrido, e naquela tarde, eu não queria fazer nada, então fui até a praça onde eu e Snow costumávamos brincar, sentei no banco em que costumávamos descansar, e senti a brisa que costumávamos sentir. Trouxe o osso preferido de Snow, e enterrei-o. Afinal, não havia lugar melhor para enterrar o osso do meu melhor amigo. Sentei aos pés de uma árvore para me esconder do Sol. Coloquei os fones e liguei a musica no volume máximo. Fechei os olhos. Imaginando nossas tardes de sábado.
     Você se sentou ao meu lado sem dizer nada, eu te olhei, você também estava com fones.
     - Oi. - você disse, com sua voz fina e despreocupada.
     - Oi. - respondi mais rispidamente do que desejava.
     - Cadê o seu cachorro? Ele chama Snow, né? - você pergunta.
     - Eu te conheço? - pergunto, começando a ficar irritado.
     - Provavelmente não, Senhora Arrogância. - eu rio, e você sorri para mim - eu vejo vocês brincando aqui nas tardes de sábado. Eu também venho aqui com a minha princesinha, a Laika.
     - O Snow mo... - minha voz fraqueja, e eu me xingo mentalmente.
     - Eu sinto muito. - você fica calada por alguns instantes - como ele morreu?
     - Ele foi atropelado, ele estava correndo atrás de um gato e... - me irritei - quer saber, eu não quero falar sobre isso. Afinal, você não sente porra nenhuma, você nem conhecia ele. Não era você que brincava com ele, não era você que o alimentava, e não era você que achava que não existiria uma vida sem ele! - não aguento e começo a chorar, tentando decidir se o choro é de raiva ou de luto.
     - Eu não preciso conhecer ou amar ele para sentir muito. Eu preciso, no minimo conhecer você. - você responde, calmamente.
     - Você não me conhece. É só uma maluca que sentou do meu lado em uma árvore! - volto a chorar.
     Você pensa por alguns instantes, e diz:
     - Eu sou Julia. Qual é seu nome?
     - Josh. - respondo.
     - Pronto. Agora já posso sentir muito pela sua perda, Josh. - você sorri, pega uma caneta em seu bolso e pega minha mão e anota seu numero - então, eu marquei com a minha dentista daqui a dez minutos, mas, se você precisar de alguém para conversar, me ligue.
     Dois dias depois, em um sábado, fiquei pensando em você, em seu cabelo ruivo, seus olhos verdes e sua roupa cheia de flores e em sua paciência irritantemente agradável. Então, sem saber,cometi um dos maiores erros da minha vida. Eu te liguei. Você atende, e antes que pudesse dizer algo, eu digo:
     - Acho que eu preciso conversar agora. - a linha fica em silencio por alguns instantes.
     - Me encontre no parque, Senhora Arrogância. - você ri. E eu só consigo dizer:
     - O.k. - e desligo.
     Te encontro no parque. Desta vez você usa um vestido verde escuro, mas seu cabelo e seu sorriso continuam os mesmos. Me pergunto se eu estou tão bonito quanto você, bem, meus cabelos castanhos estão penteados, uso uma camiseta preta com uma caveira e uma calça jeans e coloquei minhas lentes de contato em meus olhos castanhos, para não precisar usar meu óculos. Então, acho que eu poderia, pelo menos, ser considerado bonitinho.
     - Eai? - você chega com a Laika, e sentamos sobre a árvore onde nos encontramos pela primeira vez.
     - Eu precisava de uma companhia, é o primeiro sábado desde que o Snow morreu. - minha voz entristece.
     - Bem, então eu quero que você saiba que eu sempre vou estar aqui se você quiser conversar. - você oferece.
     - E se eu quiser mais do que só conversar? - você cora, ficamos olhando um para o outro, e nos beijamos.
     - J-Josh, e-eu preciso te contar uma coisa. - você diz, preocupada.
     - Eu não quero saber. - afirmo e te beijo.
     Duas semanas depois, nós começamos a namorar, e eu estava começando a cogitar em comprar um cachorro novo. Estávamos com vinte anos e eu tinha certeza de que eu te amava, e naquela noite, eu te pediria em casamento.
     Combinei um jantar a luz de velas (em um sábado) embaixo da árvore em que nos conhecemos. Conversamos sobre aquele dia, e, finalmente, coloquei o anel na sua champanhe. Você assustou, e tirou o anel da boca, e, antes que você pudesse se quer dizer: sim, eu comecei meu discurso.
     - A algumas semanas, nós nos conhecemos debaixo desta árvore, eu estava de luto, e você me consolou, e, a partir daquele dia, eu soube, que meu destino era ficar com você, você é o meu único ''final feliz'' e o único que quero ter, então, Julia Rogers, você aceita casar comigo?
     Nessa hora você entrou em pânico, provavelmente sua consciência pesou, e tudo que você disse foi:
     - Eu atropelei o Snow. Eu estava brava porque ele cruzou com a Laika, no dia que você saiu para tomar sorvete e me deixou com ele, e eu não queria criar filhotes, então, eu vi ele na rua, e... eu matei o Snow.
     Naquela hora, eu gelei. A raiva assumiu meu corpo, então te estapeei e gritei:
     - Como você pode? Sua vadia falsa!
     Eu andei até o meu carro e você se jogou na frente dele. Você gritava:
     - Josh, eu te amo. Por favor, não me deixe. Não termine com o que temos. - você chorava, mas, eu só conseguia imaginar em como eu chorei quando o Snow foi atropelado.
     Acelerei o carro, e por pouco você se salvou. Peguei a estrada sem rumo, só queria estar longe dali. Eu poderia te perdoar, mas eu não queria. Sabia que talvez estava deixando meu único ''final feliz'' para trás. Bem, talvez eles simplesmente não existam. Eu não ligo, eu não ligava para mais nada. Eu só conseguia pensar: fodam-se os finais felizes.

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